Sobre câmeras e bordados
[Elaine de Souza*]
Eu sou de Humanas e gosto de gente. E se tem uma coisa que acende um fogo aqui dentro são filmes com histórias bem contadas. Filmes, músicas e livros. Com histórias bem contadas. Sou aquela que fica na poltrona do cinema até rodarem todos os créditos. Isso porque além de gostar das gentes e de suas histórias, gosto de pensar nos fazeres de roteiristas, montadores, diretores de fotografia, redatores, enfim... Gosto de pensar sobre como encontraram soluções para contar uma história.
Talvez isso explique minha preferência por documentários. Um gênero que deu à luz ao cinema quando a primeira câmera registrou “A Chegada do Trem na Estação”, dos irmãos Lumiére. Esse registro dos franceses abriu um portal para as produções documentais no mundo. Mas foi com “O Homem com a Câmera na Mão”, do russo Dziga Vertov, que o documentário fincou pés e alma no que chamamos narrativa experimental, abrindo caminhos para a liberdade e força do olhar de quem produz cinema em busca de seu estado "puro", experimentando, experimentando, tanto quanto possível.
Faço esse preâmbulo para dizer que nessa trilha, tenho interesse em todas as produções que caem em minhas mãos e, por vezes, sou surpreendida por documentários de jovens hiper focados que têm a câmera na mão e tatuada no DNA.
Foi assim que do apito do trem fui atraída pelo apito da fábrica do filme Memórias Bordadas - uma produção que integra um projeto maior denominado “Mulheres operárias da Fábrica de Rendas e Bordados Hoepcke: memória, trabalho e cotidiano”, com registros em áudio (podcast Mulheres da Fábrica, produção da Rádio Scientia), textos (blog e áudio book) e imagens (o filme Memórias Bordadas).
O projeto todo é assinado por Letícia
Morgana Muller, Felipe Matos, Marcelo Eme, Ilza Carla Fávaro Lima e Carlos
Eduardo Caldarelli, e o filme conta com uma equipe enorme de pessoas
talentosas que dão corpo e alma para produções desse gênero e traz relatos de
ex-operárias que trabalharam nesta fábrica, sediada em
Florianópolis-SC, entre 1946 e 1972.
Relatos alinhavados
O que poderia ser um
vídeodocumentário comum, com relatos desconexos de memórias individuais
soterradas num prédio antigo onde um dia centenas de mulheres trabalharam numa
fábrica de bordados, ganha ar de encontro de família, no encontro de roteiro,
fotografia e montagem de Memórias Bordadas. Encontro de histórias que se cruzam
na Rua Felipe Schmidt e nas seções chefiadas por alemães e homens carrancudos.
Encontro da linha com a agulha. Da agulha com o tecido. Da ideia que se desenha
a cada alinhavo. E logo temos um pano transformado numa outra coisa que também
vai se tornar memória...
Com diálogos que alinhavam
passado e presente, embalados por uma trilha que delicadamente dá o tom dos
relatos, entramos naquelas salas e participamos de fatos que marcaram a vida de
Kalu, Jovelina, Elza, Marias e Elizetes... E, por vezes, olhamos para as
páginas do livro Pedra Grande (de Heitor Luz Filho) que também costura a
história - cuidadosamente pesquisada pelo historiador Felipe Matos.
E, com a sutileza de quem sabe
bordar com luzes e cortes, a equipe do filme nos aponta o avesso, o lado dos
pontos. É lá que moram os detalhes da feitura. Os suores. Os furos nos dedos,
mãos e pernas exauridas... Lá, onde o apito ensurdecedor oprimia a mulher
que era proibida de adentrar a fábrica após bater 7 horas da manhã, com o
primeiro alerta apitando às 6h50. O apito. O ponto de incômodo tão esperado no
gênero documentário. E a partir dele, repetições em série e seções conjugadas
na prática: recortar, medir, bordar, montar, embalar.
Tudo costurado por relatos das
atrizes sociais na reconstituição narrativa de um dia delas na rotina da
fábrica - um golaço da montagem. Do percurso até o ponto de ônibus, a chegada,
as seções onde cada uma atuava, passando pelas marmitas de almoço, os percalços
na manipulação das máquinas, até o apito da saída, as memórias vão sendo
bordadas com sensibilidade e perspicácia num filme criativo e bem resolvido,
com aplausos especiais para a fotografia que passeia entre detalhes e panoramas
da Florianópolis daquele tempo-espaço.
Mas, tire você as conclusões. Confira o filme e não deixe de ouvir os episódios do podcast Mulheres da Fábrica porque, além da voz certeira de Letícia Morgana Muller, que nos embala
com serenidade e curiosidade, eles superam na sonoplastia e dão uma aula de
como fazer podcasts envolventes.
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*jornalista e escritora,
especializada em Linguagem, Cultura e Mídia (Unesp).
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